Friday, February 23, 2018

O sorriso que iluminava meu dia

Meus pais resolveram se mudar pro interior quando eu tinha 13 anos. Nada poderia ter me desagradado mais, mas como sempre fui mansa, nunca retruquei. Fui junto e pronto, até porque, com 13 anos você não manda em absolutamente nada ainda. hahaha

Pra aliviar um pouco meu espírito fui fazer o colegial em uma cidade vizinha, o que era ótimo e terrível ao mesmo tempo. hahaha. Ótimo porque eu saía da "roça", como eu gostava de chamar, e ia pra um lugar um pouco maiorzinho e pelo qual eu sempre tive apreço, mas terrível porque continuava detestando a escola.



Além disso, eu tinha que acordar muito, muito, muito cedo mesmo, pra chegar na escola no horário. Madrugava! Logo eu, que odeio acordar cedo desde sempre! E desde sempre tenho que acordar cedo. ARGH! Mas aquilo era um exagero! Nem os galos acordavam tão cedo quanto eu! Minha vontade era fazer o percurso de casa até a rodoviária gritando a plenos pulmões pra obrigar todo mundo a acordar cedo também, mas... não fazia... talvez porque o sono ainda não permitisse nesse horário.

O normal era eu entrar no busão, me atirar no primeiro banco livre que encontrasse e ir capotada, roncando e babando até chegar no meu destino e quase sempre conseguia fazer isso. Vez ou outra não dava certo então eu ia apreciando a paisagem, o que também era legal até. Lembro de uma vez que vi uma águia (ou algum bicho voante desses) capturar um rato no meio da plantação de alface (ou alguma planta verde igual) que pareceu cena de documentário do Animal Planet (que eu sempre adorei). Achei aquilo o máximo! Olhei ao redor surtada querendo comentar o fato com alguém e me toquei que só eu tava acordada no ônibus, então...

Mas teve outro dia de "insônia matinal busãonística" que mudou minhas viagens para sempre. Tava eu lá, emburrada, como sempre, "desmiliongüida" no assento, quando o ônibus para num ponto da estrada, no meio do nada, e eu avisto um Deus Grego subindo pelas escadas da porta da frente, caminhando, em câmera lenta, até a catraca, pagando a passagem, girando a borboleta e atravessando o corredor!

Ele era um perfeito Príncipe Encantado de conto de Fadas! Alto, loiro, olhos azuis claros de fazer você perder a noção da delicadeza e encarar constrangedoramente com aquele semblante de donzela apaixonada.

Quanto os olhos dele encontraram os meus eu devo ter virado um pimentão instantaneamente. Senti o calor nas bochechas e me virei pra janela tão rápido que quase dei com o nariz no vidro! Ainda bem que não bati! Acho que se tivesse acontecido eu me atiraria pela janela e sairia correndo até chegar na Índia!

Pra recuperar a dignidade e parar de olhar pra ele enfiei na cabeça que o rapaz não tinha dentes! Por um tempo funcionou bem. Ele entrava no busão, a gente se entreolhava e eu voltava a apreciar a vista... ou seja, observar aquela loucura de homem pelo reflexo do vidro, o mais discreta que eu conseguia!

Mas a vida, né, gente... a vida... Um belo dia ele devia estar super animado (coisa que não consigo entender como acontece com alguém àquela hora da madrugada, salvo quando acorda-se acompanhad@) e, ao entrar no busão me cumprimentou não com o habitual aceno de cabeça, mas com um sorriso... um sorriso... assim... mano do céu, não tenho vocabulário pra explicar, talvez nem o dicionário tenha. Me senti derretendo no banco! Eu tenho quase certeza que soltei um suspiro alto nesse momento! Torço pra não ter feito, mas tenho quase certeza de que fiz! Ele tinha TODOS os dentes! TODOS! Lindamente brancos, contornados por lábios divinos! No formato mais lindo que a Natureza poderia ter desenhado!

Desde este dia passamos a nos cumprimentar com um sorriso toda manhã e é óbvio que eu nunca mais dormi no caminho pra escola (passei a tirar o atraso do sono durante as primeiras aulas da manhã, mais ou menos até meio dia, o que confirmou minha teoria de que a gente aprende mesmo durante o sono profundo).

Contudo, todavia, entretanto...... NUNCA nos falamos! Nem sei como é a voz dele, nunca soube! Talvez por isso não deixei passar a oportunidade quando, anos depois (muitos anos depois), me vi trocando olhares com um loirinho novamente em um ônibus. Já contei essa história por aqui no post "Porque sem aventura a vida não tem graça" e o desfecho foi uma delícia (oops! Contei! hahaha)!

Quase 20 anos depois me vi lembrando dessa história percorrendo a mesma linha mais cedo do que qualquer ser humano merece. Dessa vez  Apolo não entrou no ônibus, mas me arrancou um sorriso do mesmo jeito que fazia antes. Gostoso, né? Platão se orgulharia.

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