Faz tempo que ando perdendo coisas, pessoas, a hora, o jeito, a paciência, o cuidado, a crença no todo e na existência, mas o legal de perder tudo é que chega uma hora que o vaso fica vazio e estamos dentro de uma nova onda sem perceber, quando nos damos conta já estamos prontos para perder novamente.
Semana retrasada adiantei a coluna por perder a noção dos dias da semana, semana passada me ausentei também pelo mesmo motivo, quando vi a quarta-feira já estava no fim e achei melhor perder aquele dia, deixar passar sem muita dor, sem muita culpa.
No final de semana comprei um livro, sem saber do que se tratava a história uma amiga me mandou o vídeo do Abujamra declamando um poema de Elizabeth Bishop e acertou em cheio, pois o livro é baseado em uma troca de correspondências entre ela e seu amor.
Apesar de estar distraída e perdendo muitas coisas, não estou com a angustia da perda e seria muito interessante se quando perdêssemos um amor (se isto for realmente possível) a gente encarasse desta forma.
A arte de perder não é nenhum mistério
tantas coisas contém em si o acidente
de perdê-las, que perder não é nada sério.
Perca um pouco a cada dia. Aceite austero,
a chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Depois perca mais rápido, com mais critério:
lugares, nomes, a escala subsequente
da viagem não feita. Nada disso é sério.
Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Perdi duas cidades lindas. Um império
que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.
Mesmo perder você ( a voz, o ar etéreo, que eu amo)
não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser um mistério
por muito que pareça (escreve) muito sério.