Friday, October 9, 2015

Sobre Preconceito

Quem poderia imaginar que o Amor me faria começar a me livrar de um dos meus maiores preconceitos?

Cresci numa família preconceituosa, como a maioria das famílias paulistanas (estatística extremamente pouco válida, já que estou tirando por base as famílias que conheci apenas). Somos todos de Itaquera, Zona Leste de São Paulo, famosa por ser terra de gente pobre e, ainda assim, consigo me lembrar de inúmeros casos, contados por membros da minha família, com os quais fui aprendendo que negros eram bandidos, nordestinos eram vagabundos, que tatuagem era coisa de quem ia pra cadeia, que mulher que não pensava em se casar e ter filhos era vadia, que só morava ladrão na Cohab, que gays eram todos doentes e perigosos, e por aí vai...



E eu... o que eu poderia pensar? Era apenas uma criança, crescendo com tudo isso ao meu redor, apenas achando um pouco incômodo, mas sem muita certeza do que, exatamente, estava errado.

Os tempos já eram melhores para os negros e as pessoas já camuflavam parte de seus preconceitos (ainda que na marra) contra negros com discursos como "eu não sou preconceituoso, mas que a maioria dos bandidos é preto, isso é". Ainda estava formando minhas opiniões, claramente influenciadas por pessoas deste tipo, mas já não gostava do que via, entretanto, como não falava com quase ninguém nessa época, pouco discutia sobre estes assuntos e apenas escutava e observava (sim! houve um tempo em que eu não falava com as pessoas. Hahaha. Quem me conhece hoje pode ter dificuldades em imaginar esse tempo. Hahaha)

Bem... na adolescência tive um amigo negro. Não era meu melhor amigo, mas fazia parte do meu grupo de amigos mais próximos e eu gostava muito dele por ser um dos mais inteligentes, atenciosos e determinados do grupo. Esse cara me fez perceber, definitivamente, que o preconceito era uma coisa imbecil e que eu precisava me livrar, especialmente depois do comentário devastador de um dos membros da minha família "ele é preto mas é bonzinho, né?".

Desde então eu levo realmente a sério essa coisa de me livrar de preconceitos. A sério mesmo! E percebi que não é nada fácil mudar uma visão de mundo depois que ela foi enraizada na com tanta força na minha cabecinha. Descobri também que nada como o contato direto e freqüente para deixar tudo muito mais fácil.

Explico.

Percebi que negros não tinham nada de diferente de mim quando convivi com negros. Percebi que gays eram pessoas tão felizes e realizadas em alguns pontos e tão frustradas em outros, exatamente como eu, convivendo com eles. Percebi que tatuagens são apenas uma roupa legal que as pessoas gostam de usar quando convivi com pessoas tatuadas... E assim fui me curando de um preconceito atrás do outro.

Talvez parte desta determinação em ser uma pessoa melhor decorra do fato de eu ser mulher e sofrer preconceito por isso. Mais tarde acabei me colocando em outras situações preconceituosas quando decidi trabalhar com coisas "de homens" e quando resolvi ter também tatuagens. Mas isso tudo aconteceu depois que eu já tinha plena consciência de que o preconceito é ridículo e que eu devia fazer o que eu quisesse da minha vida, ainda que me fosse difícil.

Agora, aos 35 anos, sei que sou uma pessoa melhor, mas ainda peco em alguns aspectos e me envergonho deles. Devo confessar que até meses atrás eu ainda agia como uma imbecil com relação a nordestinos. Na minha cabeça ridícula e pequena eu ainda argumentava "é diferente de negros... negros têm uma cor de pele diferente e nada impede que seus caráteres (acho que essa palavra não existe no plural, mas tudo bem...) sejam tão bons ou tão ruins quanto o de qualquer outra pessoa. Nordestinos não, o problema deles é cultura. Eles foram educados numa cultura pobre e irracional, por isso são piores.". Quem diabos sou eu pra julgar alguém nesta vida?!? Quem?!? Tenho mesmo vergonha de já ter pensado e dito um absurdo destes! Por isso registro aqui! É uma forma de me punir pela mediocridade através da vergonha e da humilhação.

Mas o mundo conspira pra salvar aqueles que assim desejam e colocou uma pessoa muito especial na minha vida: o funileiro da oficina onde eu trabalho. Ele é baiano do tipo mais raiz que se pode ter. Daqueles nascidos em cidade pequena da Bahia com todos aqueles costumes absurdos que ouvimos falar por aqui. É analfabeto, negro e pobre. O exato estereótipos massacrado por qualquer "bom paulistano".

Sabe o que é você ouvir alguém falando, identificar o sotaque nordestino e, imediatamente pensar: é ignorante? Eu era assim.

Passo o dia todo com o pessoal aqui da oficina e temos sempre boas oportunidades de conversar sobre diversos tipos de assuntos. O pintor também é um cara humilde e sempre me encantou com sua sabedoria e consciência sobre o mundo, mas ele é do Sul do país, então eu jamais pensaria que ele é um ignorante. Que pequenez!

Com a volta do funileiro tive o contato com a cultura e visão dele e foi aí, meus amigos, que a vergonha veio pra me dar aquele tapa na cara que eu merecia há tanto tempo.

A primeira coisa que me surpreendeu foi o fato de ele ter sido criado como um animal pela própria família (como já haviam me ensinado que esse povo fazia) e, ainda assim, ser um cara completamente dedicado à família (a que ele construiu) de uma maneira que eu não vejo a maioria das pessoas ditas esclarecidas serem. A bem da verdade, ele é um chefe de família melhor do que muitos da minha própria família.

Depois vieram várias outras coisas que foram, aos poucos, enterrando mais este preconceito meu, inclusive observando a preocupação dele comigo, durante uma crise de sinusite, que fazia eu sentir que ele era mais família do que muito membro da minha família.

Mas o que mais me encantou nesta pessoa incrível foi o Amor!

Ele conta que se casou muito cedo. Aos 14 anos já tinha uma esposa e logo em seguida os filhos começaram a vir. Aos 14 anos ele se apaixonou pela primeira vez e este é o amor da vida dele até hoje.

Eu jamais conseguiria descrever neste texto o sentimento que é possível ver em seu rosto quando ele fala "oh, meu deus, essa mulher foi o amor da minha vida"! Jamais conseguiria. Tanto me orgulho de saber escrever bem e, entretanto, sou incapaz de usar esta ferramenta para descrever uma das coisas mais bonitas que já vi na minha vida.

Depois disso ninguém mais conseguirá, nunca mais, me convencer de que nordestinos são animais sem sentimentos, perigosos, nocivos, ou qualquer outra balela destas. Já conheci tantos nordestinos "estudados" que eram perfeitos imbecis da mesma forma que já conheci tanto paulistano que dá nojo de dizer que já apertei a mão. Ou até mais... já conheci tanto branco rico que dá mais nojo do que rato saindo do esgoto, gente de quem esperava tanto e vi/soube que chegou mais baixo do que qualquer um de pouca instrução jamais teria chegado.

Não tenho a menor pretensão de chegar a ser perfeita, mas tenho orgulho da minha determinação em ser uma pessoa melhor com relação aos outros. Gosto de me aproximar para conhecer melhor em vez de sair disseminando discursos de ódio e, a cada dia mais, percebo que pessoas são pessoas, individualmente, independente de suas origens ou qualquer característica que seja, cada um pode ser qualquer coisa nessa vida e eu não tenho como saber se não chegar perto.

Carl Sagan escreveu: "Existe um tipo de etnocentrismo entre os primatas. A qualquer pequeno grupo em que por acaso nascemos, devotamos amor e um sentimento de lealdade apaixonados. Os membros de outros grupos estão abaixo da crítica, merecendo rejeição e hostilidade. O fato de ambos os grupos serem da mesma espécie, virtualmente indistinguíveis a um observador de fora, não faz a menor diferença. ". Eu não quero ser isso. Quero ser mais. Não importa o que todo mundo está fazendo: gente do PT atacando gente do PSDB e vice-versa, muçulmanos atacando cristãos e vice-versa, índios atacando fazendeiros e vice-versa.... eu não quero ser assim! Quero chegar perto das pessoas do PT, quero chegar perto das pessoas do PSDB, quero chegar perto dos muçulmanos, quero chegar perto dos índios........ quero chegar perto de todo mundo! E descobrir quais PESSOAS valem a pena e quais não valem, livres de rótulos, livres de PRECONCEITOS.

E se é o Amor, assim, Vadio como é, que vai me mostrar mais vezes como eu tenho que enxergar a vida, que seja! Pois esta experiência eu vou levar pra vida toda como uma das mais bonitas que já tive.

5 comentários:

Claudio Vital said...

Palmas de pé! Lindo texto, perfeito em todos os detalhes.
Como sempre digo conhecimento nada tem a ver com inteligencia. Conheço pessoas estremamente simples que demonstram uma sabedoria de dar um "nó" em muito estudado. Precisamos aproximar mais com as pessoas. Há pessoas boas e ruins em qualquer lugar. As pessoas são diferentes, graças a Ogun, rsrs.
O preconceito é irracional é sem sentido é sem graça, simples assim.
O que me assusta é que pareciamos estar melhorando neste aspecto (em termos mundiais), e agora vem os extremistas religiosos de qualquer religião quer ser donos da verdade, pior ainda pra quem não acredita em deuses.
Virei seu fã no automobilismo
Virei seu fã como pessoa.
Parabéns novamente pelo texto !

Thais F Roland said...

Muito obrigada, Claudio. Talvez o que falta é só divulgar a ideia. Hehehe. Quem sabe, né? Eu sei que faço minha parte da melhor forma que consigo.

daniela delmond said...

Pois é Thais ...os "Pré...conceitos" ...são impostos pela sociedade a séculos e séculos...basta conhecermos de PERTO cada povo, lingua e nação de perto mesmo para vermos que a sociedade nos encuca idéias de que tudo aquilo que foge do nosso cotidiano ou o que não conhecemos não presta....Bacana reconhecermos a cada dia que existe pessoas e pessoas ...ricos bons e maus...negros bons e maus...políticos bons e maus...religiosos bons e maus e por ai vai...é no nosso dia a dia que descobrimos o caráter e índole de cada um e independente de regiões ou cultura LIDAR com pessoas EU DESCOBRI ...É UMA ARTE NÃO É ?? a gente cresce e aprende a cada dia.Bjosss no seu lindo coração...

Thais F Roland said...

Muito isso mesmo, Dani! Espero, de coração, que o importante seja mesmo a gente fazer a nossa parte, porque mudar o mundo é difícil demais, mas desistir é covardia, né? hehehe Beijao, Loirona Linda!

Unknown said...

Bacana que opinou sem "mimimi". Quem nasce envolto por preconceito precisa mesmo aprender a sair dele. O problema é que o ser humano costuma ser vaidoso demais para assumir quais são/foram suas limitações. Parabéns por não aumentar a estatística, bonita! Engraçado e forte expor aqui detalhes a maioria ocultaria.
Quero saber quem foi a ANTA que inventou e disseminou por aí que Norte e Nordeste são regiões de gente ignorante. Isto está tão enraizado na cabeça de uns que poucos valorizam as culturas traicionais do nosso pais (que por sinal, começou por lá). É uma questão de resquício de mente colonialista. Quanto mais a gente se une nas diferenças, mais crescemos em experiências que não tivemos/teríamos. Detalhe: Norte e Nordeste nos deram artistas fantáaaaaaaaaaasticos.

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