Wednesday, December 19, 2012

VA Convida: Mas afinal o que é o amor livre? (Sabina Anzuategui)

filme "Novecento", de Bernardo Bertolucci.
Os atores são Robert De Niro, Stefania Casini e Gérard Depardieu
Aos dezesseis anos eu escrevia longas cartas semanais a um jornalista que era meu amor platônico. Às vezes ele respondia. Numa carta ele contou que tinha namorada e respondi: "Tudo bem, eu acredito no amor livre."

Eu era anarquista na adolescência, desde a leitura de "Colônia Cecília", por sugestão da professora de português. No romance, o amor livre não parece muito inspirador. O idealista Giovanni Rossi sofre suas dores de corno quando a esposa avisa que tem um interessado em colocar a ideia em prática. Mas o princípio me encantou: afinal de contas, por que não? Por que não estabelecer um acordo de liberdade mútua, com negociações claras e civilizadas nas variações de oferta e demanda? Ainda virgem em meu dia-a-dia de escola, casa e televisão, o amor livre parecia certamente mais elegante que adultos em crises de choro, bebedeira e barracos monumentais, aos berros no telefone e nas madrugadas.



Vinte anos se passaram desde essa época, e o amor livre continua um mito literário para mim. Conheci traidores compulsivos, solteiros convictos, swingers, infidelidade consentida, casais que não transam, casais com anexos eventuais, pessoas que desistem de relações românticas para frequentar prostitutas. Mas o amor livre civilizado, declarado e consentido, que alguns americanos chamam de "poliamoria", esse ainda me parece uma lenda urbana.

A ideia de "amor livre" é um rocambole conceitual. Porque, convenhamos, o amor é livre, gostemos ou não. Livre, individual, sem sincronia nem garantia de reciprocidade. Mas os idealistas libertários devem ter pensado que a monogamia equivale à propriedade privada capitalista, e, numa sociedade igualitária, o amor deveria ser dividido como as terras cultiváveis e os meios de produção. O ciúme seria equivalente ao monopólio. A infidelidade é como a exploração da classe trabalhadora, e os casos extra-conjugais são uma espécie de mais-valia.

Imagino que muitos simpatizantes teóricos do amor livre culpem a moral repressora cristã pela baixa incidência nacional dessa prática. Mas eu, para arriscar uma opinião, tendo a lembrar dos elefantes (que incomodam muita gente). Amar dá trabalho. Amar mais de uma pessoa dá mais trabalho ainda. Amar mais de uma pessoa com consentimento e definições coletivas de práticas, horários e limites... nossa. Quem tem energia pra tanto amor?

Sabina Anzuategui
Autora dos romances “Calcinha no Varal” (Cia. das Letras, 2005), "O afeto ou Caderno sobre a mesa" (7 Letras, 2011) e dos blogs: limasdapersia.blogspot.com e coletaneapratica.blogspot.com.

4 comentários:

Fabinho said...

bela matéria

Dothy said...

Muita gente tem energia para tanto amor. :)
www.relacoeslivres.com.br = um bom exemplo.

Liana Carmo said...

Dothy, vou indicar para a Sabina...rs

Rafael Araujo said...

Você ainda não entendeu o que ė amor livre.

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