Wednesday, December 26, 2012

VA Convida: Balancete amoroso (Belise Mofeoli)

A primeira vez em que eu soube que alguém gostava de mim, se não me engano, eu estava na quinta série e o “Romeu” da vez era o A.. Ele não constava na lista dos caras mais bonitos ou populares da sala, mas era, sem discussão, fofo! No duplo sentido da palavra. Levemente gordinho, e de uma doçura ímpar. E inteligente. Não sei se foi verdade, se ele gostava de mim ou não. Nunca perguntei. (Tímida!) Mas o fato de saber que alguém podia mesmo estar interessado em quem eu era, me fez sentir esquisita... vaidosa. A. não foi meu namoradinho de infância.

Alguns anos depois, em outra escola, todas as meninas da sala suspiravam pelo menino alto de bochechas vermelhíssimas, exceto eu. Pensava que, se era mesmo preciso eleger alguém interessante, por que não aquele que tirava ótimas notas, que tinha nariz imenso, e nome de astro do rock? Não, nunca fui a fim dele. Mas poderia de ter sido. Um adolescente educadíssimo! Raridade já naquela época.


Meu primeiro amor mesmo aconteceu comigo já adulta. Começou numa despretensiosa fila de cinema e terminou na caótica e fria área de desembarque do Terminal Rodoviário Tietê. Logisticamente, não ia rolar mais. Dois anos de romance e gargalhadas findados no ápice da paixão mútua. Melhor assim. Lembro de ter lido certa vez uma crônica – busquei em trocentos lugares a dita cuja para confirmar se era ou não de Luis Fernando Veríssimo, sem sucesso – que dizia que ninguém deveria casar com o primeiro amor, pois esse deve ficar guardado num lugar especial: o lugar do “primeiro amor”. No meu caso, fez sentido. As coisas se desenrolaram antes do frustrante desencantamento entre meu primeiro amor e eu.

Nessas quase três décadas de vida não posso supor que seja uma expert em relacionamentos amorosos. Longe disso: sou uma quase balzaquiana do interior que não sabe não levar a sério uma relação na qual escolheu estar. Não tenho nada de “moderninha” quando meu corpo e meu coração estão em jogo. Currículo amoroso curtíssimo. Contudo, nada me resta de passional. Passei da idade. A expressão japonesa “Koi no yokan” que significa “o momento exato em que você olha para alguém pela primeira vez e sente que podem/vão se apaixonar”, resume bastante o que eu penso no início de qualquer grande interesse que parta de mim: a gente pode sentir muita coisa já na primeira olhada, no entanto, ESCOLHEMOS se queremos ou não dar vazão à paixão. Vale mesmo a pena?

Almas gêmeas, amor à primeira vista, predestinação... nada disso faz sentido na minha cabeça. Ninguém ama de graça, oras! Amor é conquista diária e tem por base o companheirismo, seja entre amigos, amantes, parentes... Ninguém, tampouco, obriga ninguém a amar. De modo que adoro amores que vêm com o tempo, são construídos aos pouquinhos, como se fazia antigamente. É por isso que entendo pessoas que casaram com seus primeiros amores e estão juntas há 30, 40, 50... anos. Acontece que há 30, 40, 50 anos ou mais, essa angústia louca que as pessoas têm de estarem SEMPRE apaixonadas não existia. Dava-se tempo ao tempo e o amor brotava em vez de pular à sua frente, como um pop-up. Não sei bem “por que” o romance passou a ser brega, mas o “quando”... deve ter sido na mesma época em que a cortesia saiu de moda.

Belise Mofeoli é roteirista, redatora publicitária e roteirista de audiodescrição.

10 comentários:

vida e natureza said...

Puxa Liana, mandou bem nesse post, falou pouco mas com muita substância, me sinto assim, desse jeitinho que voce descreveu.....bjs

Liana said...

Oi mamãe Suely, este não fui eu quem escreveu, foi uma amiga minha, a Belise, mas concordo com tudo que foi dito!

Merciasz said...

O amor pop-up, fast,descartável, pulando como pipoca.Muito bom o texto Belise, parabéns, voce é um amor! bj

Ninil Gonçalves said...

Excelente texto Belise! Estava (continuo) com saudade de ler seus escritos.

Anam `Cara said...

Nunca havia lido um texto seu Belise e não sei se é sua marca ser simples, objetiva e falar com o coração...amei, mesmo por que me vi na nossa construção do que é amor de parente...bjs...sua prima Marisa

Dani Gambs said...

Muito legal, Bê!! É quase um manifesto anti-modernismo, esse mesmo que acelera e torna descartáveis tudo e todos, até mesmo relações humanas... se existe algo que é feito para durar, é a cumplicidade de pessoas que arriscam na paixão já sabendo que ela vai ser substituída por afeto.

Raquel said...

Belise minha querida, você arrebentou nesse texto. Acho que talvez possa até existir a sensação do amor a primeira vista e afins, mas a sensação só continua firme e forte com o companheirismo etc e tal.

Adorei!

Beijos

Dri said...

Adorei, acho que cada um que lê seu texto se encontra em algum momento dele, o primeiro amor é lindo mesmo, sempre puro...

Anonymous said...

Bacana Belise!!!simplesmente adorei... grande beijo

Anonymous said...

Belise Mofeoli, de volta ao mundo dos vivos após entregar projeto insano, se desculpa pela demora no retorno.

Obrigada pela atenção, seus lindos!!!! Que bom que gostaram!

Beijinhos.

Post a Comment